Depois do tratamento de mama: o que esperar do corpo e o que fazer

O último dia da radioterapia costuma ser comemorado. Só que, no câncer de mama, o tratamento raramente termina ali: para muitas mulheres, ele segue por anos com o bloqueio hormonal. E o corpo que saiu dessa fase não é exatamente o mesmo que entrou.

Conhecer as queixas mais comuns não é se assustar. É saber que quase todas têm manejo e que vale levá-las à consulta.

A menopausa que chega antes da hora

Em mulheres jovens, o tratamento pode antecipar a menopausa. Vêm os fogachos (as ondas de calor), o ressecamento vaginal, a queda do desejo e a perda de massa óssea [1]. Nada disso precisa ser suportado em silêncio: existem medidas para os fogachos, hidratantes e tratamentos locais para o ressecamento, e avaliação da saúde dos ossos com densitometria quando indicada.

A dor nas articulações e um risco que vem junto

A dor nas juntas causada pelo bloqueio hormonal é uma queixa frequente e uma das razões pelas quais algumas pacientes interrompem, por conta própria, um remédio que reduz a chance de a doença voltar. Esse é o ponto que mais importa deste texto: antes de parar, converse. Existem ajustes de medicação, mudança de classe, exercício e outras estratégias. As diretrizes internacionais de cuidado a quem terminou o tratamento de mama recomendam explicitamente que a equipe apoie a continuidade do tratamento hormonal [1].

O braço, a imagem e a memória

Pode aparecer inchaço do braço, o linfedema, que tem tratamento e merece avaliação precoce. Pode haver desconforto com a imagem corporal depois da cirurgia. E é comum a queixa de cansaço que não passa e de dificuldade de concentração, aquilo que muitas pacientes chamam de “cérebro de quimio”. São efeitos reconhecidos e previstos nas diretrizes de seguimento [1], não invenção de quem está sentindo.

O medo que volta antes de cada exame

O medo da recidiva é mais a regra do que a exceção. Uma análise que reuniu dados individuais de 46 estudos em 13 países encontrou que cerca de 59% das pessoas com câncer relatam pelo menos um nível moderado desse medo, e 19% relatam nível alto [2]. Saber que ele é frequente já ajuda; quando atrapalha o sono, o trabalho ou a vida, existe tratamento.

O que levar para a consulta de seguimento

A consulta pode ser mais do que pedido de exame. Vale chegar com uma lista escrita dos sintomas que persistem, inclusive os constrangedores. Vale perguntar sobre exercício de forma específica: o que é seguro, com que frequência, começando de onde. Vale pedir um resumo por escrito do tratamento recebido e do calendário de exames, para você e para o médico da atenção primária [1]. E, se o diagnóstico veio antes dos 50 anos ou há vários casos na família, vale perguntar sobre avaliação genética, o que pode mudar seu seguimento e proteger filhas, filhos e irmãs.

Terminar o tratamento não é voltar a ser quem se era. É construir uma vida nova, com um corpo que mudou. E quase toda sequela tem alguma forma de cuidado, desde que seja dita em voz alta.

Sem pressa. Com método.

Referências

  1. Runowicz CD, Leach CR, Henry NL, Henry KS, Mackey HT, Cowens-Alvarado RL, et al. American Cancer Society/American Society of Clinical Oncology breast cancer survivorship care guideline. J Clin Oncol. 2016;34(6):611-35.
  2. Luigjes-Huizer YL, Tauber NM, Humphris G, Kasparian NA, Lam WWT, Lebel S, et al. What is the prevalence of fear of cancer recurrence in cancer survivors and patients? A systematic review and individual participant data meta-analysis. Psychooncology. 2022;31(6):879-92.

Este conteúdo tem caráter educativo e informativo e não substitui a consulta, o diagnóstico ou o tratamento individualizado com seu médico. Cada caso é único e deve ser avaliado por um profissional de sua confiança.

Escrito por Dr. Fabiano Hahn Souza — oncologista clínico (CRM-RS 24568, RQE 30145), Doutor em Epidemiologia pela UFRGS.

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Dr. Fabiano Hahn

Médico oncologista. Programas de atendimento personalizados de prevenção, suporte e sobrevivência do paciente com câncer.