Terminada a cirurgia e a quimioterapia, a expectativa é retomar a vida. Muita gente descobre então que o intestino não funciona mais como antes, e que ninguém tinha avisado. Essa fase tem queixas conhecidas e, na maioria das vezes, tratamento.
O intestino que não voltou ao normal
A queixa mais comum não é dor. É urgência para evacuar, várias idas seguidas ao banheiro, dificuldade de segurar. Quando acontece após cirurgia do reto, tem nome: síndrome da ressecção anterior baixa. E não é raro: uma meta-análise estimou que cerca de 4 em cada 10 pessoas operadas apresentam a forma mais intensa do quadro [1]. Existe até um questionário validado para medir a gravidade, que pode ser aplicado na consulta [2]. O tratamento inclui fisioterapia do assoalho pélvico, ajuste alimentar e medicação.
Quem usa bolsa de ostomia enfrenta outras questões: cuidado com a pele, custo do material, imagem corporal. Também aí há apoio especializado disponível.
O formigamento nas mãos e nos pés
Quem recebeu quimioterapia com oxaliplatina pode ficar com formigamento e dormência nas mãos e nos pés por bastante tempo. Em um estudo francês com 406 pacientes, cerca de 31% ainda tinham esses sintomas ao longo dos cinco anos seguintes ao fim do tratamento [3]. Atrapalha tarefas delicadas, como abotoar uma camisa, e pode afetar o equilíbrio. Existem opções de tratamento, e vale relatar mesmo quando parece “coisa pequena”.
O que mudou sobre exercício
Durante muito tempo, recomendar exercício era um bom conselho de qualidade de vida. Em 2025, isso mudou de patamar para quem teve câncer de cólon.
Um ensaio clínico randomizado publicado no New England Journal of Medicine, chamado CHALLENGE, acompanhou 889 pessoas operadas de câncer de cólon que já haviam concluído a quimioterapia. Metade recebeu apenas material educativo; a outra metade entrou em um programa estruturado de exercício por três anos. Depois de quase oito anos de acompanhamento, 80,3% do grupo do exercício estavam vivos e sem a doença em cinco anos, contra 73,9% do outro grupo; em oito anos, 90,3% estavam vivos, contra 83,2% [4].
O ensaio randomizado é o tipo de estudo que permite falar em causa e efeito, e o que se mediu aqui é o que mais importa: viver mais e sem que a doença volte. Mas os limites precisam ficar claros. O estudo foi feito em câncer de cólon operado, depois da quimioterapia, com pessoas em condições de se comprometer por três anos, e não pode ser simplesmente transferido para outros tipos de câncer. Além disso, a intervenção não foi “orientar a caminhar mais”: foi um programa com profissional acompanhando, sessões supervisionadas e contato mantido ao longo de três anos. O alvo era acrescentar cerca de duas horas e meia de caminhada rápida por semana ao que a pessoa já fazia, construídas aos poucos [4].
Estudo CHALLENGE — exercício após câncer de cólon
- Desenho
- Ensaio clínico randomizado — o tipo de estudo que permite falar em causa e efeito. 889 participantes, publicado no New England Journal of Medicine em 2025.
- Quem participou
- Pessoas com câncer de cólon operado (estádio III ou II de alto risco) que já haviam concluído a quimioterapia.
- O que foi medido
- Desfecho duro: viver mais e sem que a doença volte — não um exame ou marcador intermediário.
- O que mostrou
- 80,3% vivos e sem doença em 5 anos no grupo do programa de exercício, contra 73,9% no grupo que recebeu apenas material educativo. Em 8 anos, 90,3% vivos, contra 83,2%.
- O que não mostra
- Não testou outros tipos de câncer, nem pessoas fora de condições de treinar por três anos. E o que foi testado não foi um conselho para caminhar mais: foi um programa com profissional acompanhando, sessões supervisionadas e contato mantido ao longo de três anos.
Courneya KS, Vardy JL, O’Callaghan CJ, et al. Structured exercise after adjuvant chemotherapy for colon cancer. N Engl J Med. 2025;393(1):13-25.
O que levar para a consulta
Anote os sintomas que persistem, inclusive os constrangedores. Pergunte sobre exercício de forma específica: o que é seguro no seu caso, com que frequência, começando de onde. Peça o calendário de exames por escrito. E, se o diagnóstico veio antes dos 50 anos ou há vários casos na família, pergunte sobre avaliação genética, que pode mudar seu seguimento e proteger irmãos e filhos.
Sem pressa. Com método.
Referências
- Croese AD, Lonie JM, Trollope AF, Vangaveti VN, Ho YH. A meta-analysis of the prevalence of low anterior resection syndrome and systematic review of risk factors. Int J Surg. 2018;56:234-41.
- Emmertsen KJ, Laurberg S. Low anterior resection syndrome score: development and validation of a symptom-based scoring system for bowel dysfunction after low anterior resection for rectal cancer. Ann Surg. 2012;255(5):922-8.
- Selvy M, Pereira B, Kerckhove N, Gonneau C, Feydel G, Pétorin C, et al. Long-term prevalence of sensory chemotherapy-induced peripheral neuropathy for 5 years after adjuvant FOLFOX chemotherapy to treat colorectal cancer: a multicenter cross-sectional study. J Clin Med. 2020;9(8):2400.
- Courneya KS, Vardy JL, O’Callaghan CJ, Friedenreich CM, Campbell KL, Prapavessis H, et al. Structured exercise after adjuvant chemotherapy for colon cancer. N Engl J Med. 2025;393(1):13-25.
Este conteúdo tem caráter educativo e informativo e não substitui a consulta, o diagnóstico ou o tratamento individualizado com seu médico. Cada caso é único e deve ser avaliado por um profissional de sua confiança.
Escrito por Dr. Fabiano Hahn Souza — oncologista clínico (CRM-RS 24568, RQE 30145), Doutor em Epidemiologia pela UFRGS.