O câncer de próstata é, para muitos homens, uma doença que se trata e se supera. O que raramente se conta é o que vem depois: efeitos que mexem com urina, sexo, corpo e humor, e que costumam ficar de fora da consulta porque ninguém pergunta e ninguém conta.
Este texto existe para que esses assuntos entrem na conversa.
Urina
Depois da cirurgia, a perda de urina aos esforços é comum nos primeiros meses e melhora na maioria dos casos ao longo do primeiro ano. A fisioterapia do assoalho pélvico ajuda, e começar cedo faz diferença. Quando a perda persiste depois de um ano, existem procedimentos específicos que podem ser avaliados. Após a radioterapia, o padrão costuma ser outro: urgência, aumento da frequência e vontade de urinar à noite [1].
Sexo
A dificuldade de ereção é a sequela mais frequente e a menos falada. Há tratamentos, de medicamentos a dispositivos, e o resultado é melhor quando a reabilitação começa cedo, sem esperar “ver se volta sozinho” [1]. Podem aparecer também mudanças pouco avisadas: orgasmo sem ejaculação, perda de urina no orgasmo, alteração no tamanho do pênis. Nada disso é sinal de que algo deu errado com o tratamento, e tudo isso pode ser conversado. Quando existe uma parceria, incluí-la na conversa costuma ajudar.
O bloqueio hormonal
Quem faz bloqueio hormonal enfrenta um conjunto próprio: fogachos (ondas de calor), perda de massa muscular e de força, ganho de gordura abdominal, perda de massa óssea, cansaço, queda da libido e alterações de humor [1]. Há manejo para praticamente todos esses pontos, incluindo avaliação da saúde dos ossos e prescrição de exercício, com destaque para o treino de força.
Vale dizer com todas as letras: cerca de 30% dos homens com câncer de próstata apresentam sofrimento psíquico clinicamente relevante, segundo as diretrizes de cuidado a quem terminou o tratamento [1]. Tristeza, irritabilidade e desânimo não são frescura nem falta de fibra.
O coração entra na conta
Um estudo que acompanhou mais de 3,2 milhões de pessoas com câncer nos Estados Unidos mostrou que, entre as que morreram, cerca de 11% morreram por doença cardiovascular, e não pelo câncer. No câncer de próstata essa proporção foi ainda maior, em torno de 17% [2]. Isso não é motivo de alarme, é uma indicação de para onde olhar: pressão, colesterol, glicemia, cigarro, peso e exercício passam a ocupar o centro do acompanhamento, ao lado do PSA.
O que levar para a consulta de seguimento
Pergunte com que frequência o PSA deve ser feito e por quanto tempo. Leve por escrito os sintomas que persistem, inclusive os constrangedores. Pergunte o que é seguro em termos de exercício, com que frequência e começando de onde. Peça avaliação da saúde dos ossos se estiver em bloqueio hormonal. E peça que pressão, colesterol e glicemia sejam olhados com a mesma atenção dedicada ao câncer.
Sobreviver ao tratamento não é apenas manter o PSA baixo. É viver bem com o corpo que ficou, e boa parte disso depende de colocar na mesa assuntos que costumam ficar calados.
Sem pressa. Com método.
Referências
- Skolarus TA, Wolf AMD, Erb NL, Brooks DD, Rivers BM, Underwood W 3rd, et al. American Cancer Society prostate cancer survivorship care guidelines. CA Cancer J Clin. 2014;64(4):225-49.
- Sturgeon KM, Deng L, Bluethmann SM, Zhou S, Trifiletti DM, Jiang C, et al. A population-based study of cardiovascular disease mortality risk in US cancer patients. Eur Heart J. 2019;40(48):3889-97.
Este conteúdo tem caráter educativo e informativo e não substitui a consulta, o diagnóstico ou o tratamento individualizado com seu médico. Cada caso é único e deve ser avaliado por um profissional de sua confiança.
Escrito por Dr. Fabiano Hahn Souza — oncologista clínico (CRM-RS 24568, RQE 30145), Doutor em Epidemiologia pela UFRGS.