Durante muito tempo, o tecido adiposo — a gordura corporal — foi visto principalmente como um local onde o organismo armazena energia. Hoje sabemos que ele é muito mais ativo: produz hormônios, envia sinais para outros órgãos e interage diretamente com o sistema imunológico.
Um estudo publicado no Journal of Clinical Investigation ajudou a entender uma das consequências desse processo: na obesidade, o próprio tecido adiposo pode se transformar em um ambiente de inflamação crônica.
O que acontece dentro do tecido adiposo?
Nosso sistema imunológico possui células chamadas macrófagos, que participam da defesa contra infecções, da remoção de células danificadas e do reparo dos tecidos.
Essas células também estão naturalmente presentes no tecido adiposo. Em animais magros, os pesquisadores observaram que os macrófagos apresentavam predominantemente características associadas ao controle da inflamação e à manutenção do equilíbrio do tecido.
Com o desenvolvimento da obesidade, porém, ocorreu uma mudança importante: aumentou a presença de macrófagos com características pró-inflamatórias.
Essas células passaram a produzir substâncias capazes de aumentar a inflamação local e interferir no funcionamento normal das células de gordura.
Ou seja, na obesidade, não aumenta apenas a quantidade de gordura: muda também o ambiente imunológico dentro do tecido adiposo.
O que isso tem a ver com diabetes?
A insulina é um hormônio fundamental para que a glicose presente no sangue seja utilizada pelas células. Quando os tecidos passam a responder menos à sua ação, surge a chamada resistência à insulina, uma alteração importante no desenvolvimento do diabetes tipo 2.
O estudo mostrou que substâncias inflamatórias produzidas no tecido adiposo podem prejudicar a ação da insulina. Por outro lado, uma molécula anti-inflamatória chamada IL-10, encontrada em maior quantidade nos macrófagos dos animais magros, ajudou a proteger as células de gordura desse efeito.
Os resultados ajudaram a consolidar uma ideia hoje importante na medicina: a obesidade não representa apenas aumento das reservas de gordura. Ela pode modificar o funcionamento do sistema imunológico e favorecer um estado persistente de inflamação de baixa intensidade.
É importante destacar que esse estudo foi realizado principalmente em modelos animais e investigou mecanismos biológicos. Seus resultados, portanto, não devem ser interpretados isoladamente como prova de que o mesmo processo explique todas as consequências da obesidade em seres humanos.

E o que isso tem a ver com o câncer?
A relação entre excesso de gordura corporal e doença vai além do diabetes. Estudos realizados em seres humanos mostram que o excesso de gordura corporal está associado a maior risco de desenvolver diversos tipos de câncer.
Após analisar mais de mil estudos, a Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC), ligada à Organização Mundial da Saúde, concluiu que existem evidências suficientes relacionando o excesso de gordura corporal a cânceres como os de intestino, pâncreas, fígado, rim, endométrio, ovário e mama após a menopausa, entre outros.
Não existe uma única explicação para essa associação. Entre os possíveis mecanismos estão inflamação crônica, alterações no metabolismo da insulina e mudanças nos hormônios e em outros sinais que regulam o crescimento das células.
É justamente aí que estudos como este ganham importância: eles ajudam a compreender como alterações que começam dentro do tecido adiposo podem produzir consequências em todo o organismo.
Por isso, manter uma quantidade saudável de gordura corporal não é importante apenas para reduzir o risco de diabetes e doenças cardiovasculares. Também faz parte das estratégias de prevenção do câncer.