Seu médico avaliou mais do que o seu tumor?

Por que a avaliação oncogeriatrica pode mudar — e muito — o tratamento do câncer em pessoas com 65 anos ou mais

Quando alguém com mais de 65 anos recebe um diagnóstico de câncer, a primeira preocupação — compreensível — é começar o tratamento o quanto antes. Mas existe uma etapa que muitas vezes passa despercebida, e que as evidências mostram ser fundamental para que o tratamento funcione da melhor forma possível: a avaliação oncogeriatrica, ou avaliação geriátrica em oncologia.

Em 2025, a Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) publicou uma diretriz global recomendando que essa avaliação seja feita em todos os pacientes com câncer com 65 anos ou mais que estejam recebendo tratamento sistêmico — como quimioterapia, imunoterapia ou terapia-alvo. Não é uma recomendação opcional. É um padrão de cuidado.

Mas o que essa avaliação é, afinal? Por que ela importa? E o que ela muda na prática?

O que a avaliação oncológica convencional não enxerga

Quando você vai ao oncologista, ele avalia o seu tumor: onde está, que tipo é, qual o estágio, quais são as opções de tratamento. Isso é essencial. Mas existe outro lado da história — você, a pessoa que tem o tumor — que muitas vezes fica em segundo plano.

Uma pessoa de 70 anos pode parecer, à primeira vista, “bem” para receber quimioterapia. Mas será que ela está dormindo mal por causa de dor? Está tomando seis medicamentos diferentes? Perdeu peso nos últimos meses sem perceber? Mora sozinha e não tem quem leve ao hospital nos dias difíceis?

Nenhuma dessas informações aparece no exame de imagem ou no hemograma. E todas elas podem influenciar diretamente como o corpo vai reagir ao tratamento.

É exatamente aí que entra a avaliação oncogeriatrica: ela identifica vulnerabilidades que a avaliação oncológica convencional não captura.

O que é avaliado?

A avaliação oncogeriatrica é uma avaliação estruturada que olha para a pessoa de forma ampla. Segundo a diretriz da ASCO, os domínios avaliados incluem:

  • Função física — como a pessoa se movimenta, se cansa, se cai com frequência
  • Função cognitiva — memória, atenção, capacidade de tomar decisões
  • Saúde emocional — presença de depressão, ansiedade, sofrimento relacionado ao diagnóstico
  • Nutrição — perda de peso recente, apetite, risco de desnutrição
  • Comorbidades — outras doenças que a pessoa já tem (diabetes, hipertensão, insuficiência cardíaca)
  • Polifarmácia — uso de muitos medicamentos ao mesmo tempo, que podem interagir entre si
  • Suporte social — se a pessoa tem apoio familiar ou de cuidadores
  • Expectativa de vida — avaliação do prognóstico geral, além do câncer em si

Juntos, esses elementos formam um retrato muito mais completo de quem é esse paciente — e de quanto ele pode tolerar, ou se beneficiar, de um determinado tratamento.

O que muda na prática?

Essa é a pergunta mais importante. Conhecer as vulnerabilidades do paciente serve para quê?

A diretriz da ASCO é clara em três pontos:

1. Informar a decisão sobre o tratamento oncológico

Os resultados da avaliação podem ajudar o médico a decidir, por exemplo, se a dose da quimioterapia precisa ser ajustada, se um tratamento mais agressivo é adequado ou se uma abordagem mais conservadora faz mais sentido para aquela pessoa. Um paciente com boa reserva funcional pode tolerar mais; um paciente com múltiplas vulnerabilidades pode se beneficiar de um plano diferente — não necessariamente menos eficaz, mas mais adequado à sua realidade.

2. Tratar as vulnerabilidades identificadas

Se a avaliação revela que o paciente está desnutrido, ele pode ser encaminhado a um nutricionista antes de iniciar o tratamento. Se há depressão não tratada, ela pode ser abordada. Se está em risco de queda, intervenções de fisioterapia podem ser iniciadas. Essas ações, aparentemente “paralelas” ao tratamento do câncer, têm impacto direto na capacidade do paciente de completar a terapia.

3. Fazer encaminhamentos e intervenções direcionadas

Muitas vezes, o oncologista não pode (e não deveria ter que) resolver tudo sozinho. A avaliação oncogeriatrica frequentemente abre portas para uma equipe multiprofissional — oncogeriatra, geriatra, nutricionista, fisioterapeuta, assistente social, psicólogo — que trabalha junto para que o paciente chegue ao tratamento nas melhores condições possíveis.

Por que isso importa tanto para quem tem mais de 65 anos?

Porque envelhecer não é uma coisa só. Duas pessoas de 72 anos podem ser completamente diferentes: uma ainda trabalha, pratica exercícios e não toma nenhum remédio; outra tem dificuldade para caminhar, faz uso de vários medicamentos e perdeu massa muscular nos últimos anos. Tratar as duas da mesma forma seria um erro.

A avaliação oncogeriatrica existe justamente para não fazer essa generalização. Ela reconhece que a idade cronológica — o número de anos — diz pouco sobre a capacidade funcional real de uma pessoa.

Estudos mostram que quando essa avaliação é feita e as intervenções são realizadas, os resultados são concretos: menos toxicidade ao tratamento, melhor qualidade de vida e, em muitos casos, melhores resultados do tratamento anticâncer.

O que você pode fazer com essa informação?

Se você, um familiar ou um amigo está com 65 anos ou mais e tem câncer — ou vai iniciar um tratamento sistêmico —, vale perguntar ao oncologista se uma avaliação geriátrica faz parte do plano de cuidados.

Não como uma crítica, mas como uma pergunta legítima: “Doutor, existe a possibilidade de realizarmos uma avaliação oncogeriatrica antes de iniciarmos o tratamento?”

A ciência está do seu lado.

Referência: Bergerot CD, Temin S, Verduzco-Aguirre HC, et al. Geriatric Assessment: ASCO Global Guideline. JCO Global Oncology. 2025;11:e2500276.

Este post é de caráter educativo e não substitui a consulta com seu médico.



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Dr. Fabiano Hahn

Médico oncologista. Programas de atendimento personalizados de prevenção, suporte e sobrevivência do paciente com câncer.